Parte 4 - São Rafael!

Por Bianca Smolarek | Países:Eslováquia e Hungria
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Toquei a campainha da sala comercial. Eis que a porta se abre e uma figura simpática me olha e fala: “Você é a Bianca?”. Não acreditei que estava ouvindo português. E chorei de novo, mas dessa vez de puro alívio e segurança ao me sentir em território brasileiro (dá para acreditar nessa frase?). A figura simpática se chama Rafael e trabalha no Consulado do Brasil em Budapeste. Sua primeira atitude foi nos acalmar, oferecer uma água e garantir que tudo ficaria bem. E a partir desse momento nosso humor e nosso destino começaram a mudar.

Com o boletim de ocorrência em mãos, o consulado fez todos os encaminhamentos necessários para emissão de novos documentos. Ofereceram-nos duas opções: fazer logo os novos passaportes (o que envolve o pagamento das tradicionais taxas) ou apenas um documento chamado Autorização de Retorno ao Brasil, gratuito, aceito pelas companhias aéreas e pelos departamentos de imigração, para que embarcássemos em Budapeste, fizéssemos a conexão em Lisboa e desembarcássemos em Brasília sem problemas, conforme planejado. Sem dinheiro, optamos pela Autorização. Com aquele documento em mãos, que trazia nossas fotos com cara de assustados, sentíamos como se estivéssemos sendo deportados. Não faz nenhum sentido, mas foi assim.

 


Autorização de retorno ao Brasil

Estávamos muito felizes com a resolução deste ponto. E aí a fome bateu! Já eram quase duas da tarde e começamos a pensar em encarar os sanduíches de queijo e presunto – agora em versão “prensada” – de dentro da mochila. Mas Rafael teve piedade de nós e nos convidou para um almoço no shopping que ficava do outro lado da rua. Ficamos acanhados, mas aceitamos. Foi nosso primeiro passeio minimamente turístico em Budapeste, tendo em vista que a refeição estava deliciosa e Rafael nos deu uma aula de história húngara. Um instante de prazer após muitas horas de horror.

Voltamos para a embaixada e então partimos para a resolução dos problemas monetários, afinal, continuávamos com apenas dois euros, 200 reais e nenhum forint. Até que chegou por lá um outro casal de brasileiros, paulistano, cuja mulher jogou fora o passaporte do marido, durante uma faxina nos papéis, mapas e outros lixos que estavam no carro que alugaram para vir da Alemanha até a Hungria. A situação deles era bem mais simples que a nossa (só um passaporte a menos) e foi resolvida pelo consulado em pouco mais de meia hora. “Já que vocês retornarão ao Brasil em breve, topariam comprar nossos 200 reais?”, perguntamos. Eles haviam acabado de chegar na Hungria, não tinham forints, mas tinham euros. O câmbio nos rendeu 80 euros. Nunca nos sentimos tão ricos!

Comemoramos, mas sabíamos que isso não seria suficiente para nos sustentar nos próximos dias. Os milhares de telefonemas que fizemos do hotel, na madrugada anterior, geraram uma conta de algumas centenas de reais. Também precisaríamos nos alimentar e nos deslocar até o aeroporto. O banco ficara de nos enviar um cartão de emergência, emitido lá nos Estados Unidos e colocado no correio. Será que chegaria a tempo? Não poderíamos arriscar. Ou seja, ainda precisávamos conseguir uma quantia significativa de dinheiro. “Western Union, esse é o melhor caminho”, nos recomendaram. Trata-se de uma empresa especializada em remessas rápidas para o exterior – a taxas altíssimas, claro. Teríamos que pedir que alguém no Brasil fizesse um depósito para nós, e um órgão conveniado à Western Union (WU).

Perca seu passaporte, não perca seu dinheiro

Nunca imaginamos que seria tão rápido resolver a perda do passaporte junto ao Consulado do Brasil. Nem que seria tão difícil resolver a perda dos cartões e do dinheiro junto ao sistema financeiro mundial. Tínhamos dinheiro em diversas contas mas, sem os cartões, não conseguíamos acessar nenhuma delas. Optamos por utilizar o serviço da WU mas, por causa do feriado em Curitiba, tivemos que pedir aos "tios" Acir e Mariana, sogros do meu irmão (imaginem só!), que moram em Santa Catarina, para fazer o depósito da quantia que precisávamos, mais as taxas. Prometemos que quitaríamos a dívida assim que voltássemos ao Brasil (ai, que vergonha!).


Mariana e Acir, que enviaram dinheiro do Brasil para a Hungria e salvaram a nossa pele

O fuso horário de cinco horas entre Brasil e Hungria foi um complicador nesse processo de transferência de dinheiro. Afinal, só quando eram 15h em Budapeste é que os bancos brasileiros começavam a abrir as portas. Ou seja, a chance de recebermos o dinheiro naquele mesmo dia era mínima. De qualquer forma, precisávamos aguardar um aviso sobre quando a grana estaria disponível em algum órgão conveniado da WU em Budapeste e, para isso, tínhamos que ficar na embaixada (onde conseguiriam contato conosco mais fácil, por telefone ou internet). Passamos o resto do dia por lá, na agradabilíssima companhia da competente equipe que toca as atividades da Embaixada e do Consulado do Brasil, que nos fez sentir em casa e em segurança (mais uma vez, obrigada a todos!).

 


 Balazs e Rafael, nossos anjos da guarda

O dinheiro realmente não chegou naquele dia e tivemos que ir embora quando a embaixada fechou, mas tínhamos nossa fortuna de 82 euros. Entramos no metrô cheios de orgulho – na nossa testa estava escrito “eu posso pagar um ticket de metrô, ok?” – e fomos para o hotel. Optamos por poupar ao máximo a quantia que tínhamos, pois nenhuma das nossas alternativas financeiras tinha se efetivado ainda e não sabíamos até quando esperaríamos. Reservamos 20 euros para o jantar. Gastamos 10 em uma goulash soup para cada um e os outros 10 numa garrafa de vinho barato (achamos que era hora de tentar começar a relaxar um pouco).


Goulash Soup

No dia seguinte, sexta-feira, acordamos um pouco mais leves, um pouco mais esperançosos, um pouco mais felizes. Nesse momento já havíamos entendido que, no fundo, nossa família esteve o tempo todo conosco e que a embaixada estava ali para ajudar. Não nos sentíamos mais sozinhos – na verdade, aí percebemos que, mesmo do outro lado do mundo, enquanto houver alguém por nós nessa vida, não estaremos sozinhos! Por mais difícil que seja a situação, e por maior que seja a distância, sempre há uma solução. E aí já estávamos planejando nossa próxima viagem...


Meus pais, Sônia e Junior, e meu irmão, Toninho, que fizeram verdadeiros plantões "online" para nos ajudar, mesmo que de muito longe

Budapeste, a cidade mais linda do mundo

Enquanto aguardávamos o cartão emergencial do banco chegar ao nosso hotel e o dinheiro depositado ser entregue pela WU, naquela sexta-feira caminhamos mais tranquilos por Budapeste. Nosso dinheiro era contado, mas não pudemos deixar de usar uma quantia para comprar um presente simbólico e levar à garçonete que nos ajudou no dia anterior, juntamente com os dois tickets de metrô que ficamos devendo. O que ela fez por nós foi uma lição de solidariedade que jamais esqueceremos. “Qualquer um faria o que eu fiz”, disse ela ao receber nosso agradecimento. “Não, infelizmente não é assim”, respondi.

No fim do dia o cartão chegou e o dinheiro também. Na embaixada, nos despedimos dos novos amigos, que encerraram seu excelente atendimento nos dando a melhor dica de todos os tempos: ir ao Budapest International Wine and Champagne Festival, que estava acontecendo naquela semana, no Castelo de Buda. Quer programa melhor para comemorar? Passamos aquela noite dentro do Castelo, de frente para o Rio Danúbio, bebendo, comendo e pensando: “Como pudemos fazer uma besteira tão grande? Como nos enfiamos nessa situação? Como vamos aproveitar nossas próximas 24 horas em Budapeste? Como esse lugar pode ser tão lindo?”.


Budapest International Wine and Champagne Festival


Comemoramos o fim dos nossos problemas durante o Festival de Vinho de Budapeste, no Castelo de Buda

Nas 24 horas seguintes conhecemos uma Budapeste tão increvelmente encantadora, que sua beleza se tornou, para nós, uma memória tão marcante quanto o episódio da perda dos documentos e dinheiro. Vimos paisagens deslumbrantes, locais incríveis e a história riquíssima desse país tão interessante – e intrigante – que é a Hungria. E nessa hora, tudo que pensávamos era como aquele lugar era especial, o quanto valeu a pena ter vivido tudo aquilo para estar ali. A única coisa que realmente faltou foi o tripé... Com ele nossas fotos teriam ficado ainda mais bonitas!


Final Feliz

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