Parte 2 - "Azar pouco é bobagem..."

Por Bianca Smolarek | Países:Eslováquia e Hungria
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Horror e pânico estabelecidos. À minha cabeça só vinham ideias desconexas, como “achar embaixada”, “tentar telefone”, “bloquear cartões”, “pedir ajuda a quem?!”, “Meu Deus!”. Fomos até a administração da companhia de trem. Funcionários que “malemal” falavam inglês tentaram nos ajudar. Fizeram algumas ligações e nos contaram que, na verdade, o trem não voltara para a Eslováquia. Fora apenas estacionado próximo à estação. André pediu para ir até lá e, autorizado, entrou de trem em trem, de vagão em vagão, atrás da bendita bolsinha. Enquanto, isso eu ainda tentava me recuperar da corrida com a mochila nas costas. E pensava comigo: “Calma, Bianca! Estamos na Europa. Vão achar e devolver suas coisas!”.  Preconceito? Coisa pouca!

Os trens estavam estacionados, vazios e... limpos. Nada de bolsinha. Nem sinal! Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém nada. Aí pensamos na possibilidade de alguém ter achado e levado na administração da estação. E lá fomos nós... Outros funcionários que “malemal” falavam inglês disseram que nada fora entregue no Achados e Perdidos da local (como se diz isso em húngaro? Elveszett és talált?). Desesperamo-nos de novo, mas isso não serviu para amolecer nenhum coração. Ninguém se oferecia para nos ajudar de nenhuma forma e, nesse momento, nos sentimos extremamente solitários, abandonados, cães de rua. Foi quando vimos três policiais que faziam a segurança da estação. Eles também “malemal” falavam inglês, mas nos deram alguma atenção e nos levaram até o posto policial do local, onde encontramos outros policiais...que “malemal” falavam inglês.
 
Durante 40 minutos tentamos nos comunicar e entender o que a polícia estava fazendo em relação ao nosso caso. Eles conversavam em húngaro, entre si, e pouco nos explicavam sobre os procedimentos. Saíram para comprar McDonalds (para eles, claro), depois para fumar um cigarrinho, e nada de nos dar bola. Quando estávamos quase desistindo de continuar ali esperando, chegou uma tradutora (húngaro-inglês), convocada para ajudar na elaboração do nosso boletim de ocorrência. Era isso que eles estavam esperando... E aí nós pensamos: “Uau, ela nos entende, vai nos ajudar!”.
 
Mas a mulher estava extremamente mal-humorada – provavelmente por ter sido acionada numa quarta-feira à noite – e não tinha um pingo de paciência quando não entendíamos seu inglês, típico do leste europeu. Se eu pedia para ela repetir algo, a tradutora quase me mordia! E no final ainda fui obrigada a declarar formalmente que entendia tuuuuuuudo que ela dizia. Como resultado do nosso simpático conversê, saíram sete vias de um boletim de ocorrência escrito em húngaro (por ser o idioma oficial do país, só é fornecido assim, e eu que me vire para traduzir, se quiser), todos com meu nome errado. Mas, tudo bem! Eles não acharam que fosse necessário corrigir...
 
Ao final, as instruções da tradutora foram claras: “Guardem esse documento, mostrem-no se alguém parar vocês na rua e, amanhã, procurem sua embaixada, depois das 10h, no número 7 da rua tal. Alguma dúvida?”. “Sim. Como fazemos para ir para o nosso hotel?”, que por sorte já estava reservado e pago. A resposta foi: “Amanhã, procurem sua embaixada, depois das 10h, no endereço número 7 da rua tal”. Ok. Nós entendemos: “se virem!”. Detalhe: pedimos à polícia para arrombar o cadeado da malona, pois a chave dele também estava na bolsinha. Depois de vários homens tentarem abrir a peça, quase tiveram que chamar o MacGyver para resolver isso.


Estação Keleti

 

Azar pouco é bobagem...

Felizes com o documento que nos resguardava, mas não conformados com a falta de ajuda, fomos até o Departamento de Informações da estação. Lá, havia um senhor que parecia querer ajudar, mas não falava “Yes” nem “No”. Nada de inglês. Conseguimos um mapa para localizar nosso hotel, que ficava há cerca de 50 minutos de caminhada. Eis que o André surge com uma novidade incrível: “Lembra dos alemães? Quando você correu, eles viram que estávamos em apuros e me deram dois tíquetes de metrô. Agora temos que decidir se usamos já, para ir ao hotel, ou amanhã, para ir à embaixada”. Olhei no relógio e era quase meia-noite. Decidi: “Usamos hoje, pois está tarde e à noite tudo é mais perigoso. Amanhã acordamos cedo e vamos caminhando, de dia, com segurança”. Ele concordou e fomos para o metrô.
 
Validamos nosso tíquete na entrada da estação, onde mais nenhuma viva alma esperava o trem naquela hora. Mas nós esperaríamos o tempo que precisasse, não fosse um funcionário do metrô vir nos avisar que as atividades já estavam encerradas naquele horário. “Mas, e nossos tíquetes?!”, perguntamos, novamente desesperados. “Ferraram-se”, provavelmente disse ele, em húngaro. Ou seja, perdemos a colher de chá que o destino nos dera e continuávamos apenas com os dois euros, troco da “saideira”. O único jeito era ir a pé para o hotel e rezar para que Budapeste tivesse um princípio de madrugada bem seguro e tranquilo.

Briga de mendigos...
 
Sabe aquele clima de cidade grande, no entorno da rodoviária? Aquela visão do inferno? Foi o que vimos ao sair do metrô, depois da meia-noite. Dois bandos de mendigos duelavam sob um viaduto. Passamos por ali de fininho. A briga estava tão intensa que acho que nem nos viram, apesar do trelelê das rodinhas da malona na calçada irregular. Deu medo, muito medo. Mas, a cada quadra que superávamos, o clima se tornava mais amigável. Teve, sim, um hungarozinho metido a besta que, para se exibir aos amigos, tentou nos dar instruções erradas sobre o caminho. Mas nós somos brasileiros, né? Não caímos nessas malandragens tão facilmente – depois de ter feito a burrice de perder tudo na bolsinha, ainda massageamos nosso ego de espertalhões com isso.
 
Só dois tíquetes: “Usamos hoje, pois está tarde e à noite tudo é mais perigoso"


Apesar da longa distância, acho que levamos pouco mais de meia hora para chegar ao hotel, tamanha a nossa ansiedade. E, quando chegamos, acalmei o André: “Agora vão nos ajudar. Afinal, os hotéis têm interesse em serem prestativos. Isso ajuda na propaganda deles, o boca a boca e tal”. Santa ignorância! O único recepcionista que havia foi acordado por nós e não gostou nada disso. Já no começo da conversa comecei a contar tudo que havia ocorrido conosco. Descrevi detalhes, interpretei, encenei os momentos mais difíceis, me emocionei, mostrei a ele o boletim de ocorrência, tudo. O que ele disse no final? “Ok, and what is the question?

Perguntamos se o hotel poderia receber um depósito em sua conta bancária, feito pela nossa família no Brasil, para recebermos algum dinheiro. Ele achava que não. Perguntamos se poderia consultar um superior a respeito. Ele achava que não. Perguntamos se nossa família no Brasil poderia realizar um pagamento para o hotel (em diárias, que fosse) para eles nos repassarem algum dinheiro. Ele também achava que não. A única ajuda que nos ofereceu foi localizar, com o dedo, o endereço da Embaixada do Brasil no mapa (era longe para chuchu). Nem um empréstimo de tíquete de metrô o moço cogitou.
 
Tínhamos 200 reais guardados na malona – os quais já havíamos tentado trocar na agência de câmbio da estação, sem sucesso. Ninguém quer saber de reais na Hungria. Na intenção de tentar vendê-los, perguntamos ao recepcionista do hotel se havia algum outro brasileiro hospedado lá. Nem unzinho! Poxa vida, onde está aquela penca de turistas brasileiros que encontramos o tempo todo e em todo lugar, quando mais precisamos dela? Fomos para o quarto, equipados do telefone do hotel e nosso netbook. E começaram os contatos com a família e com o banco (horas no telefone com o banco!). Com a embaixada seria difícil naquele horário, em pleno feriado de 7 de setembro!


O Cosmo Fashion Hotel

 
Só fomos dormir após três da manhã, depois de cancelar todos os cartões e combinar com a família no Brasil que mandaríamos notícias no dia seguinte, sobre qual seria a melhor transação financeira para recebermos dinheiro na Hungria, único lugar visitado nessa viagem onde não havia agências do nosso banco. Detalhes sórdidos: o dia seguinte, 8 de setembro, é feriado em Curitiba (onde mora nossa família) e embarcaríamos para o Brasil dali menos de 72 horas.
 
Previsão mínima de despesas até chegar no Brasil? Pagar a gorda conta de telefone do hotel, transporte até o aeroporto de Budapeste e despesas durante nosso pernoite em Lisboa (por onde passaríamos em conexão).

No próximo capítulo:
- .....consultamos o mapa – seria mais ou menos uma hora de caminhada até a embaixada......
- ..... tentamos uma comunicação em inglês: “Ei, moça. Não temos dinheiro para tomar nem um café, mas precisamos urgentemente de internet. Poderíamos, por favor, entrar aí e acessar?”.....
- ....no metrô mais antigo da Europa, onde tudo é mais estranho e menos moderno, não há grande integração de linhas. Portanto, não poderíamos errar! ...

Não perca! Próxima terça tem a terceira parte!

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Como é bom a "pré-viagem", não? Aquela preparação, a expectativa, os detalhes. Vivendo a viagem, a partir de agora, será seu companheiro do início até o fim de sua viagem. Quer saber como tira visto para a Turquia? Aqui você descobre como. O que fazer para minimizar o risco de extraviar suas malas? Aqui tem. . E muitas outras coisas bacanas. Agora em um só lugar.

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Seu companheiro

Vivendo a viagem é sobre turismo, hotéis, resorts, pousadas, pacotes turísticos, destinos, passagens, câmbio, restaurantes, passeios e tudo mais que envolve uma viagem seja nacional ou internacional. É sobre as roubadas que sempre existem, sobre aquela vontade deliciosa de explorar o desconhecido. É sobre viajar mas, acima de tudo, é sobre viver ou sobreviver em outras cidades.